quarta-feira, agosto 03, 2011

Notas Burlescas (Burra Praxis Sed Praxis)


Uma pequena sucessão de episódios imaginários, de pequenas sátiras, reproduzindo, apesar de tudo, situações similares que ocorrem na vida real, no dia-a-dia da praxe, e em muitos fóruns dedicados/sobre tradições académicas.

Como o leitor perceberá, ridiculariza-se, aqui, o saber assente no “ouvi dizer”, no “acho que”, a verdadeira ignorância e iliteracia que reina no meio académico acerca da sua própria vivência, história e significado.

"doutores" destes, infelizmente, há muitos (como os “chapéus” do Vasco Santana), assim como demasiado poucos caloiros verdadeiramente interessados em saber e perceber, ao invés de meros reprodutores acéfalos.



Na Recepção ao caloiro

(Caloiro) - Sr. doutor, para que servem estas actividades que mais parecem jogos tradicionais ou os que eu fazia nos escuteiros e grupo de jovens da minha paróquia?
(doutor) - Isto, meu burro, é praxe! Serve para te integrares.
(caloiro) - Então e dizer palavrões, gritar e andar de quatro, andar a rebolar pelo chão e esfregar-me nos colegas também é praxe?
(doutor) - Claro, meu anormal! No final vais ter saudades e ver que conseguiste arranjar muitos amigos!
(caloiro) - Ora isso é um pouco tontice, porque até agora safei-me bem a arranjar amigos e amigas, e nunca fui praxado, e ao mais andei num liceu com perto de 3 mil alunos.
(doutor) - Caloiro é estúpido. Isto não é o liceu. Aqui é assim e não é para meninos da mamã ou gajos que têma mania que sabem tudo! Tu, meu anormal, estás na minha lista negra. No tribunal de praxe vais pagá-las!

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(Caloiro) – Sr. doutor, por que andam com tesouras e colheres?
(doutor) – Porque são insígnias da praxe.
(caloiro) – E porque são da praxe (essas, e não outras)?
(doutor) – Porque é tradição, sempre foi assim. A tesoura para cortar cabelo e a colher para dar nas unhas.
(caloiro) – O meu primo disse-me que também há a moca.
(doutor) – Sim, mas isso já não se usa.
(caloiro) – Ah, mas pode dizer-me a origem desses símbolos?
(doutor) – Não são símbolos, caloiro burro, são insígnias. Se queres saber, lê o código.
(caloiro) – Mas, lá não diz!
(doutor) – Se não diz, é porque não é para saber!
(caloiro) – Então o Senhor doutor não sabe!?
(doutor) – Já de 4 e a encher! Um tribunalzinho é o que vais ter por te armares em chico-esperto e vires com esse nariz empinado.
(caloiro) – Desculpe, não era intenção. Já agora, que é isso de tribunal e de onde vem essa coisa de fazerem tribunais?
(doutor) – Acho que te vais declarar anti-praxe, antes do dia acabar! Está a encher! Olha-me esta ameba: queria saber o que sei. Era o que faltava: ficar a saber tanto como eu.


Na Latada

 (Caloiro) – Sr. doutor, por que vamos todos assim com latas?
(doutor) – Porque é tradição, é a apresentação dos caloiros à cidade.
(caloiro) – Ah, que giro! E desde quando se faz aqui? De onde vem a tradição da latada e do baptismo?
(doutor) – Já se faz há muitos anos, é uma tradição muito antiga que nasceu em Coimbra.
(caloiro) – E pode explicar-me essa origem? É que o código não diz.
(doutor) – Com que então armado em curioso; o espertinho a querer saber mais que os outros? Vê lá se levas com a moca na tola! Toca a andar e a cantar, a abana-me essas latas! Queres saber? Vai à Wikipédia!


Na Serenata da Queima

 (Caloiro) – Sr. doutor, tenho aqui uma dúvida: qual a origem da Serenata Monumental (que abre a Queima)?
(doutor) – Eh pá, isso tem muitos, muitos anos. É uma tradição que veio de Coimbra.
(caloiro) – Pois, mas como assim?
(doutor) – É uma questão de pesquisares.
(caloiro) – Mas acho uma coisa estranha: sempre tive a ideia que serenata era cantar à janela de uma donzela, cantar o amor, tentar conquistar a nossa amada, só que estes tipos cantam fados e baladas que falam do adeus à faculdade e outras coisas do género.
(doutor) – É, mas isso são serenatas diferentes.
(caloiro) – Como assim?
(doutor) – Umas são para conquistar e outras para a despedida.
(caloiro) – Mas chama serenata a ambas. De onde vem essa tradição de serem diferentes?  Procurei no código, mas nada!
(doutor) – Shuuuut, na Serenata não se fala! E não aplaudas, que não se bate palmas na serenata.
(caloiro) – Não se pode bater palmas? Então, porquê? (a malta não pode aplaudir, mas fala alto e fuma, bebe e faz barulho....)
(doutor) – Ira, cala-te e sente este momento, ou ainda te traço a capa de maneira a esganar-te! Olha, vou mas é ali à barraca beber um fininho que isso é que é fado!



Na Queima

 (caloiro) – Ó senhor doutor, diga-me uma coisa: agora que estou todo aperaltado, gostava de saber de onde vem o traje que usamos e que chamam capa e batina, porque este casaco não tem nada de batina, que batina é a que usavam os padres antigamente, não era?
(doutor) – O traje vem de há muitos séculos, de quando eram os padres a mandar na praxe.
(caloiro) – Ah…… (?!?), pois…… mas olhe lá: por que razão é assim?
(doutor) – Simples: o traje é igual para todos porque assim não há ricos e pobres.
(caloiro) – E por que razão é de cor preta? E qual o significado da nossa capa?
(caloiro) – É para não se sujar tanto; e a capa, também preta, era para, noutros tempos, fugir à polícia universitária ou então andar escondidos em trupes, na noite, à caça dos caloiros.
(caloiro) – É que eu fiz como disse e fui pesquisar, mas encontrei também explicações que dizem que não é nada assim, que o traje não foi para tornar todos iguais, que a capa e batina veio substituir o traje clerical (e por isso não é continuação dele) e que o traje foi criado como uniforme; que o preto tem a ver com os votos do clero e que a capa até esteve para ser abolida; e é usada como mera peça de resguardo……
(doutor) – Olha-me este gajo! Mal acabado de trajar já pensa que sabe alguma coisa. Ó meu granda cromo, a praxe não se aprende nos livros, mas no dia-a-dia. O que precisas de aprender ouves da boca dos teus superiores, o resto não interessa.
(Caloiro) – Mas, eu farto-me de colocar perguntas e só me respondem que é assim ou assado, porque sim ou porque sopas, sempre com explicações que não esclarecem(só sabem dizer que é antigo e vem de Coimbra). Além disso, para que serve o código se não explica o porquê das coisas?
(doutor) – Ó meu amigo, estás-te a habilitar a uma sanção de unhas. Aqui não importa perceberes. Deves ver como fazemos e depois fazes o mesmo. O código é para dizer o que podes e não podes fazer, quando, onde e como.
(caloiro) – E quando é que sabemos que fazemos bem ou mal; quando há coisas que não sabemos, sequer, por que as fazemos (e o código não explica)?
(doutor) - É uma questão de bom senso. Com mais um ano em cima e ficas a perceber, que agora estás muito verde nestas andanças.
(caloiro) - Estou a ver: É  o obscurantismo medieval: quanto mais burro e obediente melhor, que saber alguma coisa pode perigar a ignorância revestida de sapiência!
(doutor) - Heim?
(caloiro) - Nada, nada!


Na noite de Tunas

 (caloiro) – Isto das tunas é muito fixe!
(doutor/tuno) – Gostas?
(caloiro) – Adoro.
(doutor/tuno) – É uma das mais antigas tradições da praxe; e tem praí uns 600 anos!
(caloiro) – Hum? Li algures que isso era invenção e que as tunas tinham nascido no séc. XIX.
(doutor/tuno) – Tás enganado, pá. As tunas vêm dos goliardos e dos sopistas; e há quem diga, até, que vieram da Tunísia, inspiradas por um Califa que era um boémio.
(caloiro) – E quem disse, e em que obra, para eu consultar?
(doutor/tuno) – Mas importa, isso, alguma coisa? Estou-te eu a dizer, e foi assim que me disseram; e todos sabem que é assim.
(caloiro) – E nunca procurou saber se era mesmo assim? Não se podem ter enganado?
(doutor/tuno) - Já ando nisto de tunas há uns anos, por isso percebo da coisa, tas a ver?
(caloiro) – Também falo e escrevo português desde que nasci e isso não quer dizer que perceba de linguística ou de gramática (apesar da minha mãe ser prof. de português), que tenha um curso de literatura (eu que até sou de engenharia).
(doutor/tuno) – Ó meu, vê se atinas e te deixas de manias. És algum marrão que encontra todas as respostas nos livros? Achas que é lá que vais encontrar resposta a tudo?
(caloiro) - A tudo não, mas também estou a ver que a mera prática não chega, e que praticar o que não se percebe é algo…….
(doutor/tuno) – Está a encher, bicho d’um raio! Olha-me o puto a desafiar-me e por em causa o meu saber! Era o que mais faltava. Vou chamar o teu padrinho que ele vai-tas cantar!

Na imposição de insígnias

 (Caloiro) - Sr. doutor eu já li o código, sei como se processa, mas tenho uma pergunta: de onde vem esta tradição de queimar o grelo, de por o grelo na pasta, de soltar as fitas, etc.? Além do mais por que se chama queima das fitas se elas não são, afinal queimadas?
(doutor) – Nós fazemos isso, aqui, já há muito tempo, mas a origem é da praxe de Coimbra.
(caloiro) – OK (é sempre a mesma resposta), mas qual o significado desses momentos, qual a sua história para que ainda hoje se repitam?
(doutor) – O que sei é que é para assinalar a passagem de uns anos para outros, basta leres o código e vês que nuns anos impõem-se uns nos demais outros, que simbolizam que vamos avançando na praxe.
(caloiro) – Não era bem isso…
(doutor) – Cala-te e olha; a ver se aprendes! Já te disse que é olhando que aprendes e percebes!



 Termina-se com a seguinte citação:

"Há tantos burros mandando em homens de inteligência,
que ás vezes fico pensando, se a burrice não será uma ciência."

                                                 '' António Aleixo'

ou, adpatando:

"Há tantos burros mandando em caloiros
que às vezes fico pensando, se a burrice não será praxe"

13 comentários:

Panamá disse...

lololol, pegaste a fundo meu caro!!!

Marta disse...

Soberbo!! :)))

As Minhas Aventuras na Tunolândia disse...

Ilustre;

Gabo-te franca e sinceramente -e acima de tudo - a pachorra. Eis algo que, de facto, não me passaria pela cabeça a esta altura do campeonato, explicar o básico sobre essencialmente, aquilo que falta bastante e acima de tudo a este meio "académico": bom senso.

Abraços!

Augusto disse...

Adorei. Dizia Gil Vicente que "Ridendo Castigat Mores" e, aqui, não podia aplicar-se melhor essa máxima.
Parabéns! Genial!

Pardejo disse...

Por estas e por outras é que perante perguntas às quais não sei responder indico o Notas & Melodias ou então venho eu mesmo rever a matéria para não ajudar no flagelo do espalhar mitos que infelizmente tanto afecta a comunidade.

Anónimo disse...

Nem de propósito. Num desse foruns que refere uma croma escreveu: "A praxe não é algo que se lê/estuda! É algo que se vive...".É preciso mais palavras perante isto? A verdade é que a brincar disse grandes verdades que infelizmente se repetem diariamente na praxe e nos foruns de praxe. Ainda bem que temos onde aprender algo mais do que a burrice que nos querem impingir.

Ruby disse...

Saudações a quem escreve o blog,

Ainda só agora vou para o 2º ano do curso e algo que no início do ano passado me levou muito tempo a perceber, e ainda não entendo, é como é que há tanta gente a gostar da praxe e como aceitam, como diz no texto, as mentiras e omissões que muitas vezes são ditas durante a prática. O pior é que alguns ilustres só vão porque os outros vão, ou para terem padrinhos, madrinhas, ...

Frequentei duas manhãs de praxe e comprei o kit do caloiro, na segunda manhã. Achei engraçado o kit e para um dia mais tarde recordar e ver o que se usava "no meu tempo". Mas, quando nessa manhã me apercebi do seu uso e também da forma como a praxe era realmente desisti completamente, porque não é algo que quisesse fazer parte. Achei também que aquilo que lá se faz e o que dizem é de uma burrice total (desculpem-me os modos).

Mas é como tudo na vida, deve-se ver e/ou experimentar para depois podermos comentar.

Com certeza que em certos locais há o que vou dizer a seguir, mas para mim, no início do ano, os alunos mais velhos poderiam fazer uma recepção aos recém chegados e fazer um pequeno acompanhamento, só para haver alguma orientação, para conhecer-nos o local, as salas e isso assim, mas sem ser dentro daquele modo de praxe, como pessoas normais...

Também acho engraçado um ponto que é: quem é da praxe, tem apadrinhamento e safa-se porque tem apontamentos de outros, relatórios,... (que muitas vezes não fazem falta), os outros, como dizem e desculpem-me o termo, que se ""desemerdem"" (não sei bem escrever esta palavra). Continuo a achar que entre colegas de curso, do próprio ano e de anos superiores, tirando uma ou outra pessoa mais acessível e amigável, continua a ser muito "olho por olho, dente por dente" e só entre um grupo muito restrito é que consegue ter alguma segurança (e, supostamente, a praxe o que quer é espírito de equipa e criar amizades, mas acho que esse não é o caminho).

No meio disto tudo, acho que também o traje deveria ser encarado como tradição académica e não, como muitas vezes é e até por professores, tradição praxística.

No meio de tanta gente a seguir o rebanho, acho que a pessoa começa a pensar, estarei correcta ou todos os outros é que estão bem?

Já me alonguei bastante, mais uma vez, saúdo quem escreve este blog, divulgando a verdade sobre estes assuntos académicos que enganam muita gente.

Encontro felicidade, por haver algo assim e é pena que todos os estudantes não o leiam ou não tenham conhecimento dele, por isso, vou divulgá-lo para que mais pessoas possam ter acesso ao conhecimento.

Obrigado pela paciência de quem ler isto!

Eduardo disse...

O homem anda quase dois anos calado, mas quando regressa... sai debaixo!

Bom regresso de "de profundis"!

Abraço!

Eduardo

Jorge disse...

Eu não tenho tempo nem grande capacidade para me meter agora a estudar praxe mas pelo menos sei onde procurar respostas sobre aquilo que não sei e evito falar de coisas que não conheço. Aprendi muito neste blogue e tento adequar o meu praxismo aos ensinamentos que aqui são colocados porque o que me dizem na minha faculdade é quase só tretas e os tipos que mandam são uns verdadeiros burros. Como foi dito atras repetem-se os erros e depois passam a ser normais mas isso é estupidez. Se não fosse este blogue e outros também pensava que muitas das coisas eram assim. Devia de haver mais informação destes blogues que informam corectamente como é o caso deste.

Eduardo disse...

Já agora:

«Praxis» significa «ensino pelo exemplo», ou «demonstração de uma teoria». Propriamente, significava o processo através do qual uma ideia ou teoria passava ao plano do concreto, fosse pela acção fosse pela materialização.

Velhos tempos em que se esperava que quem ensina também soubesse fazer aquilo que ensinava - daí que um bom professor de medicina, por exemplo, devesse ser um clínico experimentado: era pela "praxis" do mestre que o aluno aprendia a "theoria".

Daqui o nome de «Praxista» ser originalmente dado aos professores, mesmo quando não passavam de simples "legentes" ou "lentes".

Mais tarde os alunos adoptaram para si o termo «praxe», no sentido de que estavam a ensinar alguma coisa ao caloiro. Trindade Coelho (In Illo Tempore) ainda usa a palavra "praxista" para se referir aos professores, não aos alunos.

É bem mais tarde que a palavra "praxe" passa a ter o sentido que hoje tem.

Sem "theoria", não há "praxis" que preste. E com exemplos como os que vamos vendo... mais vale ficar na «ignorância».

Abraço!

As Minhas Aventuras na Tunolândia disse...

Acima, alguém tocou no ponto essencial sobre a "praxe" que é feita: Não integra coisa nenhuma. E se não integra então não é Praxe. A Praxe é dura mas educa. E educa de forma subtil, inteligente e sensata. E o que vamos vendo -e que o WB tão bem ilustrou - não é Praxe, é problema do fôro psicológico de quem se presta a estes papeís.

Sempre fui e sou Praxista dos 7 costados. Mas isto que vamos vendo nada tem a ver - felizmente - com a Praxe a que tive o previlégio de um dia aceder, a ela ser alegremente sujeito e a ela servir - não servir-me dela - para integrar os recém chegados. Não estou com isto a dizer que a Praxe deve ser algo distinto do que ela é de facto; o que não se pode nem deve fazer é tudo e mais alguma coisa em nome da Praxe. Há muito "doutor" que precisava, antes e sim, de umas boas rapadelas profiláticas, ao invés de fazerem o que fazem apenas porque alguém lhes fez algo parecido. Legitima-se o disparate com os disparates que antes se faziam. E assim se vai destruíndo a verdadeira Praxe, integradora, educadora, subtilmente hierarquizada mas respeitosa, alegremente jovial mas nunca policial, aceite por tudo e todos como ilustração de um modo de vida único, que cada vez mais é - infelizmente - deturpada por muitos para gozo de alguns e com prejuizo de todos.

Abraços!

Anónimo disse...

Extraordinário post!
O que me dá mais pena é que ainda há Doutores piores que estes, há doutores que nem a Capa e Batina sabem vestir e que depois falam em saudade.

Acho que era uma óptima ideia fazer a versão 2 deste diálogo com um Doutor decente a responder a todas as perguntas do caloiros.
Seria um post magnífica para futuros caloiros lerem e aprenderem. Eu cá gosto que os meus caloiros saibam tudo o que me ensinaram a mim e muito mais!

Parabéns! :)

WB disse...

A ideia é sucitar exactamente a curiosidade de quem lê.
Qualquer um pode agora imaginar o doutor a dar as respostas correctas, bastando, para isso, passar os olhos pela lista de artigos que encontram do lado esquerdo do blogue, e adquirir/ler o livro "QVIDTVNAE" (para a parte das Tunas e Serenatas).