sábado, maio 16, 2015

Notas aos Anéis de Curso



A ORIGEM

O denominado "Anel de Curso" deriva dos anéis doutorais.
Os anéis com ou sem sinete, são usados desde a antiguidade e, na tradição europeia, estão historicamente associados aos actos de investidura e autenticação de documentos solenes/oficiais.
Temo-los, pois, usados por monarcas, papas, bispos, reitores e docentes universitários, bem como notários.

Como nos refere António Nunes,

"Eram obrigatórios nos actos de colação do grau de doutor nas universidades católicas estabelecidas em Roma, em Coimbra, Salamanca e Oxford. No caso específico de Coimbra, o anel doutoral tem base em ouro e pedra na cor da especialidade científica. Nesta universidade portuguesa a tradição estatutária não especificava anel para bacharéis nem para licenciados, costume que se afirma nas ourivesarias de Coimbra pela década de 1950."[1]

O anel apresenta-se, tradicionalmente, respeitando as caraterísticas do ouro português, de 19,2 quilates, e a peça será encimada por um uma pedra  fixa na chamada "incrustação em caixa".

Como dissemos, é nos actos de doutoramento que o anel ganhou importância para, mais tarde, ser replicado pelos licenciados.
Vejamos, sumariamente, o contexto do anel nos actos doutorais:

"Compete a cada candidato à laurea convidar individualmente o seu «Apresentante», dignitário de certa categoria que terá de adquirir o Anel Doutoral a ofertar ao recipiendário. Não existe um modelo padronizado para o Anel Doutoral conimbricense, mas é obrigatório que tenha a base em ouro e uma pedra na cor oficial da respectiva Faculdade (annulus cum gema)."[2]

É essencialmente a partir da década de 1980 que os anéis de curso ganham notoriedade e se tornam moda em quase todos os estabelecimentos universitários do país, mimetizando a tradição  conimbricense que não será anterior à década de 1950.

DOS ANÉIS DOUTORAIS AOS ANÉIS DE CURSO

Contudo, e como nos alerta A. Nunes, tais anéis não estão propriamente em conformidade com qualquer disposição estatutária ou com a heráldica académica, pois não é considerado próprio o uso de anéis ao grau de licenciado (e muito menos ao de bacharel - na altura em que também estes os usaram), algo que será contrariado pelas ourivesarias da década de 1950 (a quem se deverá, em grande parte, a moda dos anéis de curso).
E por que razão?


"Em primeiro lugar porque, segundo os estatutos e as tradições mais ascentrais, quem pode usar anel de ouro com gema na cor da especialidade científica são os detentores do grau de doutor e não os licenciados nem os bachareis. Em segundo lugar porque a maior parte dos distintivos figurados são puras invenções kitsch sem suporte algum na cultura greco-latina que estriba as alegorias das escolas maiores e respectivos atributos.


Doutoramento honoris causa del-Rey D. Juan Carlos I de Espanha 
pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Sala dos Actos Grandes, 17 de Maio de 1989.
O Prof. Doutor Orlando de Carvalho procede à imposição do anel doutoral. 
fonte: http://www.gettyimages.com/detail/89666207/Hulton-Archive
citada e usada por A. Nunes em Virtual Memories, 3-10-2010
.
O anel conimbricense de pedra (hoje em dia fabricado pelos ourives de Gondomar) é muito tardio. Na verdade, generaliza-se na sequência da moda dos aneis de curso que desde ca. 1920 se tinham popularizado nas universidades da Austrália, Canadá e EUA.

Atendendo a que foi criada a marca Universidade de Coimbra, seria pertinente elaborar um manual actualizado das alegorias de cada faculdade, selos oficiais e distintivos de cursos, de modo a que a UC pudesse tirar proveito económico do património que tem o seu nome e que outros exploram livremente. O que fazer a mais de meio século de aneis de curso de manufactura e uso espontâneo? Adequá-los às normas heráldicas e integrá-los na revitalização dos actos de formatura, dando sinal institucional de apreço pelo património simbólico."[3]

A verdade é que os anéis de curso se espalharam um pouco por todo lado, embora, na actualidade, a sua procura e ostentação tenha drasticamente diminuído, fosse por razões económicas, fosse porque, cada vez mais, a ostentação de tal peça ser vista como uma presunçosa afirmação de superioridade.

Com efeito, são muitos os que o adquiriram e, entretanto, passado o tempo "do pavão" (a vaidade de ostentar o grau académico perante terceiros), o guardaram na gaveta.




HERÁLDICA E MOTIVOS INCRUSTADOS



Uma das muitas dúvidas surge precisamente com os motivos incrustados em baixo relevo no anel. Quais os adequados?
Aliás essa questão da herálidica académica está igualmente presente quando pensamos nos brasões de curso, especialmente aqueles que os estudantes ostentam nas suas capas (e que são, na maioria das vezes, adulterações e desenhos fantasiosos que nada têm a ver com a heráldica oficial e tradicional).

Afinal, também os anéis de curso obedecem, ou deveriam obedecer, a algum critério?
Pegamos, uma vez mais, nas palavras de António Nunes, que nos serve de guia, que sobre isso nos diz, a respeito dos anéis doutorais:

" Não existe um modelo padronizado para o Anel Doutoral conimbricense, mas é obrigatório que tenha a base em ouro e uma pedra na cor oficial da respectiva Faculdade (annulus cum gema). Ao contrário do admitido para a Borla e Capelo, no Anel Doutoral nunca se misturam cores.

Quando uma Faculdade tem duas cores (Carmezim e Branco, de Economia, ou Castanho e Branco de Educação Física), a pedra é bicolor. Nas Faculdades onde está consagrada uma só cor, apenas se pode aplicar uma pedra na parte superior do anel, mas não orlas de diamantes em torno da mesa onde assenta a gema principal.

As duas faces do besel costumam ser esculpidas, mas nunca foi obrigatório nelas figurar o Sigillum da Alma Mater nem o emblema de cada Faculdade.

Quando um docente é doutorado por mais do que uma Faculdade, dispõe a tradição que possa ter tantos anéis quantas as Escolas por onde se graduou e não um só anel com mistura cromática de gemas."[4]

Depois, temos os baixo-relevo:

" A fábrica nem sempre respeita os motivos heraldísticos, o que confere a estes "anéis de curso" um ar vincadamente kitsch. Significa isto que em vez do bastão e serpente de Esculápio, podemos deparar com caveiras, dentes ou até com o caduceu de Mercúrio (erro iconográfico propalado pelos serviços médicos do exército dos EUA). Ou em lugar do caduceu de Mercúrio (Economia) podemos ver o símbolo do euro (€). O mais certo é a taça e a serpente de Higeia (Farmácia) andarem confundidas com a palmeiras das antigas boticas.

E não surpreenderá que a graciosa borboleta de Psiché (Psicologia) ceda pleno foro à letra do alfabeto grego. No limite, tamanha arbitrariedade não convence e pode mesmo desacreditar os respectivos portadores. O mesmo vale para os códigos cromáticos aplicados às gemas, que em certas instituições são totalmente aleatórios."[5]


Se o anel de curso deriva dos anéis doutorais, não é despiciente falarmos na influência que esses mesmos anéis terão sofrido, dentro da cultura eclesiástica, se nos lembrarmos que as universidades estiveram, durante longo tempo, sob tutela da Igreja.

Assim, a elevação académica dos reitores e lentes, seria a transposição da elevação hierárquica dentro da hierarquia da Igreja. Recordemos, pois, o mais famoso dos anéis: o anel papal, também denominado de "Anel do Pescador"[6], que ostenta o brasão de armas de cada papa, o qual é destruído após a morte do pontífice (sendo feito um novo par ao seu sucessor). O beija mão que ainda hoje se pratica, entre fieis e o seu bispo, costuma ser traduzido por um beijo no anel bispal, símbolo do estatuto e poder espiritual (e que chegou a também ser poder temporal).

A moda do anel de curso, ou "graduation ring", fortemente impulsionada pelas ourivesarias, poderá, porventura, também ter sido impulsionado pela influência que estes já tinham fora de Portugal.
Os anéis de graduação têm uma já longa história, colocando, alguns, a sua origem no ano de 1835, quando, em West Point, os alunos fizeram uns quantos para assinalar o fim do seu curso de instrução e a amizade que os unia, constando do anel o ano (turma/classe) que tinham frequentado.[7]
Tal foi copiado pelos alunos que iam terminando, ganhando contornos de tradição e espalhando-se dentro e fora do EUA, quer no domínio académico quer, também, no desporto - de onde são bem conhecidos os anéis de campeão em várias modalidades). Uma moda que se acentua a partir da década de 20 do séc. XX.
Terá sido tal a razão que levou os licenciados e bacharéis a aderir a esta moda, aliciados pela possibilidade de já não apenas os doutorados possuírem um, mas também eles?

Faz isto lembrar um pouco a actual moda das fitas aos milhares e pastinhas cartonadas inventadas pelas lojas de comércio de artigos académicos (tendo criado a oferta e aliciado a procura), embora com diferenças:
1ª travestiram a tradição da pasta da praxe e das 8 fitas, inventando por cima (e ignorando que já existiam uma balizada tradição neste particular) e jogando com a ignorância e narcisismo pueril dos alunos;
2ª o anel de curso não é matéria de Praxe, e a pasta de finalista com fitas, no que respeita à sua configuração, é-o.


PRAXIS

 

Não existe propriamente uma praxis associada ao momento em que se deve colocar.
O que poderemos avançar é que, seguindo o protocolo académico dos doutoramentos, ele deve ser colocado ou no dia em que se recebe o diploma (muitas academias organizam uma cerimónia de entrega de diplomas), logo após receber o mesmo.
Não sendo possível nesse dia, coloca-se depois,  quando for adquirido.
Usa-se, claro está, no anelar da mão direita.


CONCLUSÃO


Os anéis de curso são uma prática recente no meio discente universitário português.
São uma cópia, transposição dos anéis doutorais.
O seu uso decorre de uma moda que, ao que tudo indica, foi fortemente impulsionada ("inventada", pelos vistos) pelas ourivesarias, a partir da década de 1950.
Existe uma forte possibilidade que as ourivesarias em causa, fosse por auto-iniciativa ou por sugestão de alguns alunos (ex-alunos) tenham sido influenciados pela moda dos anéis de graduação muito em voga fora de Portugal.

Sabemos, portanto, que os anéis que os nossos bacharéis e licenciados passaram a usar, não eram, para todos os efeitos, algo próprio aos mesmos, tendo sido instituídos à revelia de qualquer norma estatutária e muito menos alicerçados numa tradição heráldica tradicional.
Hoje são uma realidade que, como já o dissemos, parece ter tido, já, muito mais adeptos do que actualmente.








[1] NUNES, António, In Virtual Memories, artigo de 07 Março 2010.
[2] Idem, artigo de 08 de Março de 2008.
[3] Idem, artigo de 18 de Março de 2010
[4] Idem, artigo de 08 Março de 2008.
[5] Idem. artigo de 07 de Março de 2010.
[6] igualmente conhecido por "Anel do Pescador de Almas".
[7] Em Portugal tal evocação também se regista, quando se fala no curso de X e se coloca o ano de início e término desse grupo de alunos.

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